Apesar de ser presença garantida em qualquer balcão aquecido, de qualquer bairro, em qualquer cidade do Brasil, a democrática coxinha tem na nobreza,  seu berço. Reza a lenda que o filho da princesa Isabel (a mesma da Lei Áurea) com o conde d”Eu, é o culpado. Considerada uma criança com problemas mentais, foi criada isolada, longe da corte, na fazenda Morro Azul, em Limeira, interior paulista. Lá, todos faziam a vontade do pequeno, sempre na tentativa de evitar a gritaria.

Entre suas exigências estavam as coxas de galinha. Certo dia, percebendo que não havia tal parte da ave suficiente para satisfazer o rebento, prevendo a histeria, uma das cozinheiras da fazenda tratou de improvisar. Desfiou outras partes da galinha e moldou com uma massa à base de farinha no formato do membro original. O garoto, claro, adorou.  O sucesso foi tanto que até sua avó, a imperatriz Tereza Cristina, curiosa em conhecer o petisco favorito do neto, experimentou.

Pronto! Bastou para que a receita extrapolasse os alqueires da fazenda, chegasse às mãos do mestre da cozinha imperial e conquistasse a realeza brasileira. Hoje, há versões do petisco com  requeijão e massa de batata, inhame,  mandioquinha (batata salsa) ou mandioca. No recheio tem quem coloque pato, carne louca e até atum (apesar desse não ter coxas).

Invencionices à parte, fato é que enrolar em massa, empanar e fritar sobras de carnes é um hábito antigo para a humanidade. Difícil é precisar quando e como eles surgiram, até porque cada povo tem no cardápio suas variações. Afinal, o que seria quibe árabe além de um bolinho de carne enrolado, recheado e frito? A lógica é a mesma. Historiadores apontam que o croquete, outro parente da coxinha, descende dos rissoles (no Brasil risoles) feitos na Roma Antiga. As primeiras receitas ganham registros impressos no início do século 17 e estão no Oxford Companion to Food (Editora Oxford), de Alan Davidson. Já na cultura oriental, consta que há mais de 2 mil anos os chineses já faziam bolinhos de arroz recheados com frutos do mar. 

Atualmente, tem bolinho de tudo.  Eles são comida de mão, como define o antropólogo Raul Lody, em seu livro Brasil Bom de Boca – Temas da antropologia da alimentação (Ed. Senac). Para o pesquisador, comer com a mão é humano, fisiológico e até filosófico. “Certas comidas, pela textura, temperatura e cheiro, só podem ser comidas com a mão. Não importa se comemos na rua, na pressa do balcão de um botequim, na calma quase budista em casa, sentados à mesa, na cozinha de frente para o fogão, na feira ou no mercado. O que importa é a ação imediata da comida à boca, sem talheres, atendendo a um desejo físico, sensorial e – por que não dizer – sexual”, filosofa o autor.  E assim é também com a nossa amada coxinha coxinha, talvez a melhor das comidas de mão que temos à mão.

Confira o passo a passo da coxinha clássica 

 

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