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Entrevista: Simone Mattar, conheça a criadora do “Como Penso Como”

Por Larissa Januário em: em: 14 de novembro de 2014
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comopensocomo

Quem mora em São Paulo capital, tem  esta semana uma segunda chance de conhecer o projeto “Como Penso Como”. Em sua segunda edição – a primerira aconteceu no ano passado no Sesc Pompéia em fomato mais amplo – o evento acontece na Casa Electrolux  até o dia 16/11 para dois grupos de 40 sortudos, divididos em duas sessões por dia, uma às 18h30 e outra às 21h30.

Difrente da edição do Sesc, que contava com exposição multimídia e instalações, esse ano o evento se atém à experiência sensorial, não menos tocante. Em um encontro à mesa os comensais têm a oportunidade de participar de um banquete que costura, pelo viez da gastronomia, arte, cultura e história brasileira. A ideia é comer arte.

O projeto é resultado de quatro anos de pesquisa sobre a história brasileira e da alimentação do nosso povo realizada pela food disigner Simone Mattar. Todo esse estudo se desdobra em nove peças comestíveis que são oferecidas aos comensais. Os cursos do jantar são permeados de manifestações artisticas conectadas à cada obra.

Simone Mattar (7)

O Sem Medida teve a chance de participar de uma sessão na última segunda (10/11)  e como a ideia aqui é compartilhar, segue um pouco do papo que tive com a idealizadora do projeto e também a descrição dos pratos e o manifesto. 

SM: Todos comemos, desde sempre. Mas vc se elmbra quando sua relação com a comida se tornou algo consciente e autônomo?
Simone Mattar:
 Quando comecei a ver o meu pai cozinhar, um Gourmet e exímio cozinheiro, quando ainda não era moda!  Me interessei por livros sobre gastronomia e só pesquisava livros de receitas. Comecei a fazer a comida das festas na casa dos meus pais com 12 anos.

SM: Aliás, você cozinha? Se sim, o que você gosta de preparar?
Simone Mattar: 
Lógico que cozinho, mas antes de trabalhar com cozinha eu cozinhava muito mais…agora a minha cozinha é muito mais uma espécie de laboratório. No dia a dia eu adoro preparar pratos orientais.

SM: E com a arte, como começou e caminhou?
Simone Mattar: 
Fiz faculdade de Design Gráfico e Desenho Industrial quando estas disciplinas faziam parte da faculdade de Artes Plasticas. Sou apaixonada pelo mundo da arte, sempre fui a museus e galerias.

SM: E em que ponto da sua trajetória comida e arte se juntaram?
Simone Mattar: 
Para mim, estas duas coisas nunca foram separadas, e eu acredito que assim como eu criei este projeto, poderia tê-lo feito para um cliente. O único problema é que as pessoas tem medo de arriscar.

SM: Você vê beleza em todo e qualquer prato? Qual é a função estética da comida para você?
Simone Mattar: 
Hoje eu vejo beleza em coisas que me comunicam algo. A estética é muito relativa. Picasso dizia que o inimigo da criação é o bom gosto e isso é uma grande verdade. Mudamos nossos parâmetros conforme nossa bagagem cultural.

SM: Sei que é impossivel resumir em poucas palavras uma projeto dessa magnitude, mas você conseguiria nos dar uma ideia de como chegou no Como Penso Como?
Simone Mattar: 
Foram os questionamentos em relação aos limites das linguagens do Design e da Gastronomia que me fizeram sempre pensar diferente. Eu tentava implantar um pensamento integrado para todos os clientes e não conseguia e acho que isso foi o que mais me instigou para ser cliente de mim mesma. Eu só queria ter uma desculpa para criar, inventar coisas novas. A dificuldade que eu senti na continuidade de um trabalho autoral dentro do design também me fez pensar em algo novo. O design, como disciplina, hoje, está completamente a serviço do marketing. Eu tive uma formação européia onde o design seria uma disciplina capaz de salvar o mundo…não conseguiria continuar a minha  trajetória profissional criando rótulos de sabão em pó, seguindo premissas exclusivamente relacionadas à performance de vendas.

SM: O projeto é um manifesto, em quem vc se inspirou para isso?
Simone Mattar: 
Minha inspiração foi o Oswald de Andrade. Conhece-lo melhor foi muito gratificante. Acho que o manifesto é uma palavra de ordem que resume uma posição contrária ao caminho natural que as coisas vão e faz as pessoas pensarem. Eu mesma não sabia quantas coisas eu questionava até elabora-lo. Na verdade, o mundo pasteurizado é resultado de uma cadeia processos que começam pela formatação do ensino superior para se potencializar com a trajetória profissional. Tudo a serviço da performance de mercado.  Felizmente este modelo não se sustenta mais sózinho. A criação é necessária para alimentar a alma das pessoas e é por isso que o nosso trabalho tem esta repercussão.

SM: Como você vê a realação do brasileiro com a comida atualmente?  Evoluímos? Ou restrocedemos?
Simone Mattar: 
Esta é uma questão que envolve diversos mundos relacionado à alimentação. As questões que envolvem a sustentabilidade no que se refere à produção e consumo no mundo estão colocando em risco uma série de coisas. Consumimos 4% da diversidade das comidas no mundo e isso é uma informação alarmante. Não vou me estender nisso mais se houver interesse posso entrar mais a fundo nesta questão. De qualquer forma não podemos olhar para o nosso umbigo quando o mundo está ameaçado por questões que envolvem a produção e o consumo de alimentos.

SM: Para você o que seria uma gastronomia brasileira autêntica? Considerando que quase tudo que comemos é uma herança dos colonizadores?
Simone Mattar: 
A gastronomia brasileira autêntica é esta mistura de todas as coisas. É a soma da herança portuguesa, indígena, africana somada às mãos dos imigrantes italianos, alemães etc. Essa é a beleza do nosso país. Só precisamos nos apropriar de nossas riquezas naturais e história, ainda que recente!

SM: Há projetos futuros envolvendo comida?
Simone Mattar: 
Muitos, tenho muitos projetos, mas a essência de tudo já está escrita no manifesto! Agora é só exercer as possibilidades…

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Manifesto COMO PENSO COMO
Contra a gastronomia parnasiana.
Exija culinária sensível!
Ponha a língua na cultura
Vomite o que não é palatável:
O homem cordial, a alta comida e a comida de lata
É o amor que perdura o gosto
Comida de rua é patria
Processos, ingredientes e história
Toda receita é imperativa:
Corte! Adicione! Ferva! Coloque! Mexa!
Degluta o bispo
Reverencie a mandioca
Ponha a penca na cabeça
Cinzele o cangaço
Aprenda com as mãos das negras
Herde um caderno escrito a lapis
Coloque tucupi no not tucupi
Harmonize a comida com o mundo
Fartura na mesa da cultura
Comida sem compostura
Exerça as possibilidades
Exerça
Porque alguns exercem
Carême, Oswald, Carmen, Lampião
Peneire a farinha sem peneirar a sujeira
Devore todos eles
Coma, logo pense.

Conheça os nove pratos e seus significados socioculturais e históricos, todo hamobnizados por vinhos brasileiros pela sommelière Gabriela Monteleone (foto abaixo): 


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1º prato – “Grande Poder”
Tem como base o principal alimento da culinária indígena brasileira, a mandioca. Com este ingrediente, Simone criou uma cúpula em formato de luminária que dá luz ao bloco de madeira que serve de apoio para o prato. O prato vem acompanhado por um croquete liquido de tacacá, pato curado no molho arubé e mandioca crocante.
Vinho: ERA DOS VENTOS PEVERELLA 2011 ( caminhos de pedra / RS )

2º prato – “Cabeça do Bispo”
O intuito desta obra é e pensar a gastronomia a partir do conceito do Manifesto Antropofágo. Para isso, Simone recupera a história da canibalização do Bispo Sardinha pelos índios Caetés, fato que inspirou o Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade. O prato traz esculturas de cabeças prateadas feitas com mousse de sardinha e recheadas de molho oriental.
Vinho: VIRTUDE CHARDONNAY 2013 SALTON ( vale dos vinhedos / RS )

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3º prato – “Sonho real” 
Inspirado no Baile da Ilha Fiscal, de 1889 , o prato é servido pelo Barão de SampaioViana, um dos idealizadores daquele que foi oúltimo baile do Império no Brasil, feito para marcar o glamour da corte contra os ventos republicanos. O baile ficou famoso como a festa brasileira mais ostensiva que jamais se viu e foi bancada por um desvio de verbas que cobririam uma situação calamitosa de seca no Ceará. Nele, um travesserinho em porcelana biscuit serve de suporte a uma versão salgada de sonho, recheado com brandade de bacalhau e pimenta-do-reino. A coroa é feita de telha de alho.
Vinho: MATIZ ALVARINHO 2011 HERMAN ( Pinheiro Machado / RS )

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4º prato – “Oludumaré”
Inspirada nas comidas servidas nos terreiros de Cadomblé como oferendas a orixás, três bolinhos feitos de uma massa com farinha de arroz e leite de coco são recheados com peixe, camarão e flor de alho para Iemanjá; vinho de palma e quiabo para Ogum; e galo capão e pimenta biquinho para Exú. No centro, uma esfera transparente é quebrada e dela sai uma fumaça aromatizada de cravo, canela e casca de obi, um fruto considerado sagrado pela religião. Embaixo, o acaçá, presente em todas as oferendas, é feito de milho branco e limão. É servido por Exú.
Vinho: ERA DOS VENTOS PEVERELLA 2011 ( caminhos de pedra / RS )

File155º prato – “Peripécias de bode no reino dos bacanas”
Feita a partir da técnica do cinzelado, a marmita de alumínio em forma de mandacarú traz referência a Lampião, do Abaporu, tela de Tarsila do Amaral, e do diretor de cinema Glauber Rocha. Dentro da marmita: arroz cateto, paleta de bode glaceada, jerimum, queijo coalho, leite de cabra e manteiga de garrafa. Na base, farofa de paçoca de pilão, urucum e cúrcuma servidos em pedra de madeira.
Vinho: SALAMANCA DO JARAU 2012 ROUTHIER & DARRICARRERE ( campanha gaúcha / RS )

Ossos_release6º prato – “Ossos do ofício”
As mulheres de uma comunidade chamada Jardim, localizada no estado de Mato Grosso do Sul, possuem um trabalho artístico único: elas usam ossos para esculpir verdadeiras obras de arte que, no final, parecem ser feitas de marfim. Este prato temcomo inspiração homenagear essas mulheres. O prato vem preparado junto a uma escultura feita no osso e é composto de barriga de porco crocante sobre purê de cítricos, picles e mini flores comestíveis.
Vinho: VINHETICA TERROIR DE ROUGE 2014 ( campanha gaúcha / RS )

 

banana2_baixa7º prato – “A preço de banana”
Inspirada em Carmen Miranda, o prato questiona a imagem de um Brasil “vendido a preço de ouro”. Da escultura de porcelana, sai uma banana dourada feita de mousse de chocolate branco caramelizado e envolto em calda de canela e recheado com doce de banana.
Vinho: FLOWERS 2014 SALTON ( vale dos vinhedos / RS )

Conflito_8º prato – “Conflito: festa do divino”
Inspirado na festa do Divino Espírito Santo, o prato representa a influência do catolicismo na alimentação do brasileiro. O tema é ilustrado pela pomba do Divino, um símbolo do Espírito Santo católico, que está no meio do prato representando a paz, cercado de nomes de lugares onde estão ocorrendo conflito ou guerras. O doce, em formato de fogueira, é feito de chocolate com pimenta e crocante de araçá.
Vinho: INTENSO ( vale dos vinhedos / RS )

9º prato – “Tabuleiro brasileiro”
Este tabuleiro traz memórias de quitutes culinários de diversas infâncias, resgatadas do imaginário popular. Os itens escolhidos têm relação com a comida de rua e com a lembrança de quando comemos fora de hora. Todos os elementos são comuns na doçaria brasileira e são vendidos na rua: paçoca, goiabada e doce de graviola aparecem em forma de papeis e renda. O tabuleiro traz paçoca Amor feita de mousse de amendoim envolta em folha de coco, mousse de goiabada envolta em papel de goiaba e bala de jabuticaba.
Vinho: INTENSO ( vale dos vinhedos / RS )

SERVIÇO
“Como Penso Como”
Período: de 11 a 16 de novembro, com degustações diárias às 18h30 e às 21h30
Ingressos: R$250 por pessoa, por meio do site ingressorapido.com.br
Endereço: Rua Colômbia, 157 – Jardim Europa, São Paulo – SP
Tel.: (11) 3465-1400
Para mais informações, acesse o site www.loja.electrolux.com.br/comopensocomo




One Comment

  1. Carlos Lima disse:

    Seu nome de familha vem dos Drusos, são bem percistentes! Seu manifesto instiga a fronteiras como o Horizonte, nunca tem fim mas sempre Horizontes!!! Tenha um merecedor Ano Novo nesse 2015! Abs

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