…Lá nos primeiros engenhos do Ciclo do Açúcar (sec XVI e XVII), ele irá ocupar os sertões do Nordeste, passará a fazer parte dos farnéis e virados dos bandeirantes e dos tropeiros…  Como bem pontuou Caloca Fernandes em seu “Viagem Gastronômicas pelo Brasil”, o feijão, por sua substancialidade, ganhou espaço na capanga* dos tropeiros.

Ser tropeiro significava, antes de tudo, pertencer a uma tropa, montar no lombo de um cavalo e viajar por longas distâncias. Cruzavam estados (Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás) levando gados e toda sorte de mercadoria. Numa época em que não havia nem estradas, nem rodas pneumáticas, nem caminhões.

Era um trabalho árduo que geralmente durava meses. E como não existia também postos de gasolina com lanches recheados com baratas, pra não morrer de fome, eles precisavam da matula. Sem refrigeração mobile, tinham que apelar para alimentos que perdurassem ao calor do sertão, e improvisar preparos em fogueiras ali mesmo, nos ranchos, montados no meio do caminho.

O feijão vinha cru na capanga. Era cozido em pouca água, que provavelmente vinha na cuia, em fogo fraco. Talvez por isso ficava meio al dente. Depois acrescentavam torresmo (que vinha na lata conservado na gordura) e farinha, eterna companheira de viagem.  Tá pronto o feijão tropeiro. Quando tinham linguiça ou carne seca, a coisa ficava ainda melhor. E tinham o que em Goiás se chama feijão tropeiro completo. A couve veio depois, talvez numa dessas andanças.

Ouço essa história desde sempre. Praticamente desde que comecei a comer feijão. Minha origem mineiro-goiana vem assim, repleta de histórias lúdicas em torno de muita comida gorda. Aliás, meu pai é o rei do torresmo, e do feijão tropeiro. Você nunca comeu um, até comer o dele. Por isso, segue a receita. Não ficará igual o meu também não ficou, mas chegará perto com certeza!

*capanga era a bolsa de couro dos tropeiros que levava a comida

Confira a receita do Feijão Tropeiro

 

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